sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Gosto se discute

Minha mãe, minha avó e eu temos mais ou menos a mesma altura e mais ou menos o mesmo tipo de corpo, o que facilita a reciclagem de roupas. Pode ser dito que eu e minha mãe temos dois armários: o que fica no quarto dela e o que fica no meu; há roupas dela no meu armário e minhas no armário dela. Minha vó, por outro lado, não veste nem minhas roupas nem as roupas da minha mãe, mas lá de vez em quando eu acabo pegando emprestado (pra sempre) algumas roupas dela.

Entre essas roupas, tem O Casaco. Ele é bege, tem botões grandes de cor marrom e passa da cintura. Tem as mangas largas - é todo largo. É tipicamente um casaco de vó. E eu adoro O Casaco. Já minha mãe detesta O Casaco. Diz que eu deveria, no melhor dos casos, usar O Casaco para dormir ou em casa em dias frios em que nada parece fazer efeito pra esquentar. Debocha, dizendo que logo eu, tão metida, usando um casaco velho que era da minha vó desde sei lá quando.

Mas eu adoro O Casaco. Não posso fazer nada.

Minha mãe me repreende quando eu uso O Casaco. Quando eu vou pro trabalho com ele, ainda tudo bem; mas quando eu vou pra faculdade com ele? Ela quase vira bicho. Balança a cabeça, prensando os lábios, com as mãos na cintura como se fosse um bule. Fica ali, meneando a cabeça e dizendo: "Gabriela, Gabriela. O Casaco de novo?" E eu só digo: "Sim, O Casaco," no que ela sai, meio frustrada, resmungando, "Sempre O Casaco. Com tanta roupa bonita... Dia desses vou colocar O Casaco no lixo."

Mas, felizmente, nunca coloca nada no lixo.

Hoje foi uma daquelas manhãs produtivas. Estendi a roupa, lavei a louça, fiquei de preguiça comendo Fandangos e assistindo tantos episódios de The Office quanto eu conseguisse. E justo essa última parte fez com que eu quase me atrasasse pro ônibus. Saí meio correndo; tirei do cabideiro justo o casaco de cima: e era O Casaco. Nem dei bola. Fui pra rua, chave em uma mão e bolsa na outra, meio perdida e com o gosto da pasta de dente ainda na boca.

(Coisas banais como escovar os dentes, quando no início de um difícil período de adaptação do aparelho ortodôntico, podem ser extremamente dolorosas; a dor pode continuar por horas. E no ônibus eu ficava prensando os lábios e passando a língua nos braquetes como se fosse a coisa mais incrível do mundo, tentando brincar com a aparelhagem de metal nova da boca, tudo pra esquecer a maldita dor. Uma tentativa engenhosa de não arruinar meu humor.)

Com as mãos enfiadas nos bolsos d'O Casaco, me balançando e murmurando pedaços de uma música do Family Force 5, eu vi uma pessoa parar do meu lado. Continuei na minha, pensando comigo mesma que minha mãe detestaria ver eu, ali, usando O Casaco. Mas ela não estava ali, então tudo bem.

Foi quando eu ouvi alguma coisa - a pessoa tinha falado comigo. Eu achei que devia ter ouvido errado - só podia ter ouvido errado. Devia ter me perguntado a hora, o dia de semana, sei lá eu o que mais. Tirei um dos fones do ouvido, franzindo o cenho e pedindo pra repetir, explicando que o fone me atrapalhou.

"Bonito casaco," a pessoa repetiu, com um sorriso no rosto.

Toma essa, mãe. O Casaco é bonito.

2 comentários:

  1. Muito bom o texto, mesmo. E concordo plenamente: gosto se discute :)

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  2. Gostei de lembrar como você escreve bem :3

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