quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Geração apressada de pedestres inconsequentes

Em Porto Alegre, todos os semáforos acabam com filas de pessoas esperando para que o sinal vermelho acenda e as pessoas possam atravessar. Eu, como algumas outras pessoas, sofro do terrível mal de impaciência: detesto não estar na fila da frente. Hoje foi um daqueles dias, acabei na terceira fileira de pessoas esperando para atravessar a rua. Isso me irrita por dois motivos simples e que definem boa parte da minha geração: eu não confio no bom senso alheio para atravessar em boas oportunidades ainda que o semáforo esteja fechado para pedestres, e também, é claro, por causa da pressa.

Corre nas nossas veias o pavor por deixar o poder de decisão na mão do outro, até para as coisas mais simples. Só naqueles segundos em que eu esperava debaixo do sol para atravessar a rua, eu já vi uma brilhante oportunidade para que todos atravessassem a rua, mesmo sem o semáforo nos ter dado essa permissão. O trânsito estagnou à uns sete metros da faixa de segurança, e enquanto os carros voltavam ao movimento, era a chance perfeita para apertar o passo e atravessar a rua. Ainda ficaria na garganta o gostinho de ter tomado proveito de alguma coisa.

Mas não. Eu estava na terceira fileira, torcendo para que uma dúzia de pessoas se desse conta do que eu já tinha me dado. Mas responsáveis e obviamente de outras gerações de menos pressa, eles assistiram os carros retomando velocidade e passando por eles, e encararam uns aos outros até que o sinal vermelho acendesse para os carros e pudéssemos atravessar.

Fiquei angustiada, rogando pragas àquela primeira fileira que não teve a magnífica ideia de atravessar a rua correndo. Se minha mãe me visse correndo e aproveitando as únicas oportunidades, claro que ia brigar. Ia dizer que não custa esperar o semáforo ficar vermelho, que um dia vou acabar sendo atropelada, me matando. (É porque qualquer outra geração, especialmente mais velha, considera a pressa suicídio.)

A gente não tem paciência pra nada mesmo. Não sabe esperar o sinal fechar; a comida ficar pronta; a promoção no trabalho finalmente acontecer. Não sabe esperar os outros se arrumarem nem tomarem decisões. De fato, mesmo que saiba, não espera. Não espera que nada vingue - quer resultados imediatos. Somos a geração que nasceu achando que já está atrasada.

Chego todos os dias pelo menos dez minutos adiantada no serviço, e contanto que eu não esteja de salto, sempre acabo correndo parte do trajeto. Corro até pra me atrasar, quando nenhum compromisso está marcado e não há ninguém na espera. Acho que somos todos assim, nós dessa geração: a gente não lida bem com o relógio; a gente nem sabe ver horas. Quando a gente olha pro pulso ou pra parede, ao invés de três ponteiros (horas, minutos e segundos), vemos uma única frase de sermão de mãe sendo repetida: "A pressa é inimiga da perfeição". Somos todos inimigos da perfeição. Apreciamos o imperfeito, adoramos as falhas e nos emocionamos diante do disfuncional. Somos todos assim, amantes da pressa e do que dá errado. Se a pressa é suicídio, nos abraçamos indo todos para o inferno. Suicídas, unite!

Não conseguimos mais mudar. Apressados e desconfiando que ninguém melhor que nós para tomar decisões, vamos seguindo nossas vidas; atravessando ruas correndo no meio de carros ou trancadas no meio de pedestres mais pacientes.

3 comentários:

  1. Eu já deixo bem avisado. Quem tentar me seguir no transito vai acabar se matando.
    E concordo em tudo contigo.
    Não faço idéia do que é paciência. HAHAHA.

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  2. Eu também corro até mesmo sem estar atrasada....
    Mas em consequência, já obtive pânico de "tremilicar" as pernas...
    Você olha o sinal dos carros e o mesmo encontra-se fechado, sendo assim, os carros permanecem parados. Momento perfeito. Porém, considerando a pressa, não me desloco até a faixa de pedestres. Então, felizmente e apressadamente começo a atravessar a avenida até que uma motoca enlouquecida que vinha costurando entre os carros, para em cima de mim.

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  3. Enfim, somos a geração coca-cola hahahah

    beijos

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