terça-feira, 16 de novembro de 2010

Seja igual à teu próximo

É preciso muita coragem para ser exatamente quem você é.

Confesso, esse post está aqui parcialmente por causa de uma grande amiga minha, uma pessoa incrível que me ajudou sempre que eu precisei; uma espécie de irmã mais velha, alguém inacreditavelmente forte; bonita por dentro e por fora. Alguém que recentemente admitiu estar apaixonada por uma menina para os pais.

É preciso, definitivamente, muita coragem.

Não acho que fica só no quesito de orientação sexual, tampouco no quesito pais apenas. Acho que a questão é muito mais ampla. As pessoas têm medo de admitir coisas bem menores sobre elas mesmas, para elas mesmas. Têm medo de inflar o peito, levantar a cabeça e dizer: "Sou assim e pronto". Elas não fazem isso.

Em um mundo em que somos criados para acreditar que precisamos desesperadamente nos encaixar em um grupo, é compreensível que o medo de se expôr demais nasça. Desde pequeninha, eu lembro de ouvir aqui e ali o que eu tinha que gostar, as músicas que eu tinha que ouvir, os filmes que eu tinha de assitir. O que eu precisava odiar e o que eu precisava amar. Não é uma falha dos pais ou da escola - é muito maior que isso. Foge do controle de ambos. É uma pressão muito grande da sociedade para ser pertencente a um grupo de pessoas que pensam exatamente igual. É o primeiro mandamento da Bíblia da modernidade: Seja igual à teu próximo.

É. Precisa de um ânimo imenso pra ser o que você é.

Uma das coisas a qual somos forçados a acreditar é que o diferente de nós tem de causar repugna, o que contradiz a questão de respeitar o outro. Se você gosta de rock e Fulano gosta de pagode, Deus o livre vocês andarem juntos. Se você gosta de cor de rosa e Fulano só veste preto, Deus o livre vocês se quer trocarem meia dúzia de palavras. Se você é virgem e Fulano tem a vida sexual mais ativa de que se tem notícia, Deus o livre vocês chegarem a serem amigos. E, finalmente, se você é heterossexual e Fulano é homo? Bom, seria um ultraje vocês dialogando.

Acho que está errado. As pessoas que admitem ser o que são, gostar do que gostam e desgostarem do que desgostam; as valentes pessoas que ousam ignorar a pressão da sociedade e admitir sua pureza de espírito, seus romances com inevitadas e igualmente corajosas pessoas, ou até a ridícula queda por Britney Spears em uma playlist dominada por indie music, bom, essas pessoas são as que valem a pena.

Seja quem você é e sinta orgulho disso.

O que você é, o que você gosta e o que você não suporta; tudo isso só diz respeito à você mesmo.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Gosto se discute

Minha mãe, minha avó e eu temos mais ou menos a mesma altura e mais ou menos o mesmo tipo de corpo, o que facilita a reciclagem de roupas. Pode ser dito que eu e minha mãe temos dois armários: o que fica no quarto dela e o que fica no meu; há roupas dela no meu armário e minhas no armário dela. Minha vó, por outro lado, não veste nem minhas roupas nem as roupas da minha mãe, mas lá de vez em quando eu acabo pegando emprestado (pra sempre) algumas roupas dela.

Entre essas roupas, tem O Casaco. Ele é bege, tem botões grandes de cor marrom e passa da cintura. Tem as mangas largas - é todo largo. É tipicamente um casaco de vó. E eu adoro O Casaco. Já minha mãe detesta O Casaco. Diz que eu deveria, no melhor dos casos, usar O Casaco para dormir ou em casa em dias frios em que nada parece fazer efeito pra esquentar. Debocha, dizendo que logo eu, tão metida, usando um casaco velho que era da minha vó desde sei lá quando.

Mas eu adoro O Casaco. Não posso fazer nada.

Minha mãe me repreende quando eu uso O Casaco. Quando eu vou pro trabalho com ele, ainda tudo bem; mas quando eu vou pra faculdade com ele? Ela quase vira bicho. Balança a cabeça, prensando os lábios, com as mãos na cintura como se fosse um bule. Fica ali, meneando a cabeça e dizendo: "Gabriela, Gabriela. O Casaco de novo?" E eu só digo: "Sim, O Casaco," no que ela sai, meio frustrada, resmungando, "Sempre O Casaco. Com tanta roupa bonita... Dia desses vou colocar O Casaco no lixo."

Mas, felizmente, nunca coloca nada no lixo.

Hoje foi uma daquelas manhãs produtivas. Estendi a roupa, lavei a louça, fiquei de preguiça comendo Fandangos e assistindo tantos episódios de The Office quanto eu conseguisse. E justo essa última parte fez com que eu quase me atrasasse pro ônibus. Saí meio correndo; tirei do cabideiro justo o casaco de cima: e era O Casaco. Nem dei bola. Fui pra rua, chave em uma mão e bolsa na outra, meio perdida e com o gosto da pasta de dente ainda na boca.

(Coisas banais como escovar os dentes, quando no início de um difícil período de adaptação do aparelho ortodôntico, podem ser extremamente dolorosas; a dor pode continuar por horas. E no ônibus eu ficava prensando os lábios e passando a língua nos braquetes como se fosse a coisa mais incrível do mundo, tentando brincar com a aparelhagem de metal nova da boca, tudo pra esquecer a maldita dor. Uma tentativa engenhosa de não arruinar meu humor.)

Com as mãos enfiadas nos bolsos d'O Casaco, me balançando e murmurando pedaços de uma música do Family Force 5, eu vi uma pessoa parar do meu lado. Continuei na minha, pensando comigo mesma que minha mãe detestaria ver eu, ali, usando O Casaco. Mas ela não estava ali, então tudo bem.

Foi quando eu ouvi alguma coisa - a pessoa tinha falado comigo. Eu achei que devia ter ouvido errado - só podia ter ouvido errado. Devia ter me perguntado a hora, o dia de semana, sei lá eu o que mais. Tirei um dos fones do ouvido, franzindo o cenho e pedindo pra repetir, explicando que o fone me atrapalhou.

"Bonito casaco," a pessoa repetiu, com um sorriso no rosto.

Toma essa, mãe. O Casaco é bonito.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Geração apressada de pedestres inconsequentes

Em Porto Alegre, todos os semáforos acabam com filas de pessoas esperando para que o sinal vermelho acenda e as pessoas possam atravessar. Eu, como algumas outras pessoas, sofro do terrível mal de impaciência: detesto não estar na fila da frente. Hoje foi um daqueles dias, acabei na terceira fileira de pessoas esperando para atravessar a rua. Isso me irrita por dois motivos simples e que definem boa parte da minha geração: eu não confio no bom senso alheio para atravessar em boas oportunidades ainda que o semáforo esteja fechado para pedestres, e também, é claro, por causa da pressa.

Corre nas nossas veias o pavor por deixar o poder de decisão na mão do outro, até para as coisas mais simples. Só naqueles segundos em que eu esperava debaixo do sol para atravessar a rua, eu já vi uma brilhante oportunidade para que todos atravessassem a rua, mesmo sem o semáforo nos ter dado essa permissão. O trânsito estagnou à uns sete metros da faixa de segurança, e enquanto os carros voltavam ao movimento, era a chance perfeita para apertar o passo e atravessar a rua. Ainda ficaria na garganta o gostinho de ter tomado proveito de alguma coisa.

Mas não. Eu estava na terceira fileira, torcendo para que uma dúzia de pessoas se desse conta do que eu já tinha me dado. Mas responsáveis e obviamente de outras gerações de menos pressa, eles assistiram os carros retomando velocidade e passando por eles, e encararam uns aos outros até que o sinal vermelho acendesse para os carros e pudéssemos atravessar.

Fiquei angustiada, rogando pragas àquela primeira fileira que não teve a magnífica ideia de atravessar a rua correndo. Se minha mãe me visse correndo e aproveitando as únicas oportunidades, claro que ia brigar. Ia dizer que não custa esperar o semáforo ficar vermelho, que um dia vou acabar sendo atropelada, me matando. (É porque qualquer outra geração, especialmente mais velha, considera a pressa suicídio.)

A gente não tem paciência pra nada mesmo. Não sabe esperar o sinal fechar; a comida ficar pronta; a promoção no trabalho finalmente acontecer. Não sabe esperar os outros se arrumarem nem tomarem decisões. De fato, mesmo que saiba, não espera. Não espera que nada vingue - quer resultados imediatos. Somos a geração que nasceu achando que já está atrasada.

Chego todos os dias pelo menos dez minutos adiantada no serviço, e contanto que eu não esteja de salto, sempre acabo correndo parte do trajeto. Corro até pra me atrasar, quando nenhum compromisso está marcado e não há ninguém na espera. Acho que somos todos assim, nós dessa geração: a gente não lida bem com o relógio; a gente nem sabe ver horas. Quando a gente olha pro pulso ou pra parede, ao invés de três ponteiros (horas, minutos e segundos), vemos uma única frase de sermão de mãe sendo repetida: "A pressa é inimiga da perfeição". Somos todos inimigos da perfeição. Apreciamos o imperfeito, adoramos as falhas e nos emocionamos diante do disfuncional. Somos todos assim, amantes da pressa e do que dá errado. Se a pressa é suicídio, nos abraçamos indo todos para o inferno. Suicídas, unite!

Não conseguimos mais mudar. Apressados e desconfiando que ninguém melhor que nós para tomar decisões, vamos seguindo nossas vidas; atravessando ruas correndo no meio de carros ou trancadas no meio de pedestres mais pacientes.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Atualização no drama do aparelho ortodôntico

Ai.

Merecimento sentimentalista e The Cardigans.

Mama tells me I shouldn't bother
that I ought just stick to another man
a man that surely deserves me
but I think you do.
The Cardigans - Lovefool

Não é um assunto exatamente novo - é a segunda vez que eu falo disso na internet - mas acho que vale a reprise. A irmã de um amigo meu acabou com o namorado recentemente, e eu tive a (falta de) sorte de estar por perto quando ela contou a ele. A resposta do meu amigo foi imediata: "Ele não te merece, Fulana. Ele nunca te mereceu," e eu fiquei pensando naquilo. Muito. Pela segunda vez.

De uma forma ou de outra, não houve consolo que funcionasse. Ela acabou se trancando no quarto e lidando com a rejeição à sua própria maneira. Eu fiquei lá, conversando com ele, e perguntei porque ele dizia que o (agora) ex-namorado da irmã dele não a merecia. Ele foi muito firme em me responder: "Ele é muito burro - e ela é tão inteligente. Fora que ela é bonita, e ele... ele simplesmente não a merece".

Eu não acho que isso seja resposta que se dê, mas respeitando a compaixão pela dor alheia (?), eu acabei aceitando o argumento e trocando de assunto. Mas fiquei com aquilo na cabeça, obviamente. Ficou na minha cabeça por um simples motivo: discordo. Discordo loucamente.

Não acho que A merecer B vai de beleza, inteligência, ou até caráter. A pode ser a pessoa mais obtusa, lerda, de aparência pouquíssimo atraente, sem ter onde cair morto, e ainda assim pode ser merecedora de pessoa B. Merecer ou não o indivíduo vai da mutualidade dos sentimentos entre A e B. Se A e B se amam de forma equilibrada, pouco importa se A dirige um conversível e B uma carroça. 

Acho que, inconscientemente, a maioria há de concordar comigo. Quem nunca usou a frase Se merecem, ainda que em uma conotação absolutamente negativa? Se A e B se desgostam de forma equilibrada, também se merecem. Merecimento sentimentalista é uma coisa pouco complexa, muito mais simples do que parece: você sente o que sentir por uma pessoa, e se é recíproco, pronto, vocês se merecem.

Sobre a bondade humana e aparelhos ortodônticos.

É comum ver as pessoas falando que já perderam a fé nos seres humanos, no como as pessoas são ruins, casos perdidos. Eu discordo, sempre discordei. Quer dizer: seria muita alienação negar os fatos e dizer que maldade é coisa inventada, mas minha opinião sempre foi de que as pessoas num geral têm boas intenções - nem sempre sabem expressar essas boas intenções, mas as tem de qualquer forma.

Hoje, finalmente, eu colei os braquetes nos meus dentes; já estava com parte do aparelho ortodôntico instalado no céu da boca, e agora de acessório de metal também conto com uma fileira de braquetes com borrachinhas vermelhas nos dentes de baixo. Quem já usou aparelho sabe que não é muito confortável. Incomoda um pouco e a pressão é um saco - no melhor dos casos. Muita gente me disse que também dói muito, mas eu ainda não senti a dor, nem estou muito ansiosa pra sentir. O fato é que quando eu saí do dentista, meu humor não estava dos melhores. Estava prensando o lábio inferior contra os braquetes o tempo inteiro, resmungando pra mim mesma que estava horrível, fazendo um drama adolescente enquanto cruzava os braços e esperava o ônibus, dando aquelas olhadelas de desprezo para todos os ônibus que não tivessem o destino que me interessava estampado na parte dianteira.

Veio um daqueles micro-ônibus amarelos, os que cobram um pouco mais na passagem mas têm ar-condicionado e assentos mais confortáveis e só um cara pra motorista e cobrador. Eu cumprimentei ele e sentei mais ou menos perto, só porque era o banco vazio.

Durante o ensino médio, eu pegava muito esse micro. Vinha antes do ônibus normal, e a pressa pra chegar em casa sempre foi grande - de forma que eu mais ou menos conhecia o motorista/cobrador. Pelo menos ele sabia onde eu descia. Mas, sabe, a rota desse ônibus mudou faz uns três meses. Não passa mais na minha rua; eu tenho descido várias quadras antes e caminhado a diferença.

Ele quis confirmar: "Tu desce na rua X, né?"
E eu assenti: "Descia. Mudou a rota, 'tô descendo na rua Y."
O cobrador-barra-motorista não respondeu nada. Continuou dirigindo, enquanto eu continuei com meu dilema sobre cortar os pulsos ou me afogar na banheira quando chegasse em casa, só de desgosto de estar com os benditos braquetes colados.

Ele não passou na rua Y. Na verdade, ele foi direto pra rua X, pulando várias paradas e voltas que ele deveria fazer. Eu franzi o cenho, pegando minha bolsa e levantando do assento, um ponto de interrogação estampado no meu rosto.

"Não ia ter ninguém pra pegar naquelas paradas mesmo... Desce em casa, não precisa andar," ele disse.

Tentei argumentar; fiquei com medo que desse problema pra ele. Não teve jeito: o ônibus já estava parado na frente da minha casa. Eu agradeci, desci do ônibus e caminhei meia dúzia de passos até abrir o portão. E nem o maldito do cadeado duro estragou meu humor, e nem eu deixar meu celular cair no chão mesmo sendo tão neurótica com meus eletrônicos. Nada estragou meu humor.  

Ele não precisava fazer aquilo, e ele não ganhou nada fazendo isso também. Foi só uma gentileza. Um gentileza como a dos meus amigos, mentindo me dizendo que o aparelho não tinha ficado ruim e como minha mãe comentando sobre todas as incontáveis vantagens de se usar aparelho. (Ainda que quando eu decidi pôr, ela tenha dito que não queria ouvir reclamações; que ia doer e que eu ia me estressar e ela não queria ouvir nada disso, porque achava que pôr aparelho ortodôntico era besteira. Ainda assim.)

Por essas e outras que eu acredito que, no geral, o ser humano é nobre e gentil.
Só tem, assim, uma compulsão por corromper uns aos outros. Isso a gente deixa pra falar outra hora.