quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Sobre a bondade humana e aparelhos ortodônticos.

É comum ver as pessoas falando que já perderam a fé nos seres humanos, no como as pessoas são ruins, casos perdidos. Eu discordo, sempre discordei. Quer dizer: seria muita alienação negar os fatos e dizer que maldade é coisa inventada, mas minha opinião sempre foi de que as pessoas num geral têm boas intenções - nem sempre sabem expressar essas boas intenções, mas as tem de qualquer forma.

Hoje, finalmente, eu colei os braquetes nos meus dentes; já estava com parte do aparelho ortodôntico instalado no céu da boca, e agora de acessório de metal também conto com uma fileira de braquetes com borrachinhas vermelhas nos dentes de baixo. Quem já usou aparelho sabe que não é muito confortável. Incomoda um pouco e a pressão é um saco - no melhor dos casos. Muita gente me disse que também dói muito, mas eu ainda não senti a dor, nem estou muito ansiosa pra sentir. O fato é que quando eu saí do dentista, meu humor não estava dos melhores. Estava prensando o lábio inferior contra os braquetes o tempo inteiro, resmungando pra mim mesma que estava horrível, fazendo um drama adolescente enquanto cruzava os braços e esperava o ônibus, dando aquelas olhadelas de desprezo para todos os ônibus que não tivessem o destino que me interessava estampado na parte dianteira.

Veio um daqueles micro-ônibus amarelos, os que cobram um pouco mais na passagem mas têm ar-condicionado e assentos mais confortáveis e só um cara pra motorista e cobrador. Eu cumprimentei ele e sentei mais ou menos perto, só porque era o banco vazio.

Durante o ensino médio, eu pegava muito esse micro. Vinha antes do ônibus normal, e a pressa pra chegar em casa sempre foi grande - de forma que eu mais ou menos conhecia o motorista/cobrador. Pelo menos ele sabia onde eu descia. Mas, sabe, a rota desse ônibus mudou faz uns três meses. Não passa mais na minha rua; eu tenho descido várias quadras antes e caminhado a diferença.

Ele quis confirmar: "Tu desce na rua X, né?"
E eu assenti: "Descia. Mudou a rota, 'tô descendo na rua Y."
O cobrador-barra-motorista não respondeu nada. Continuou dirigindo, enquanto eu continuei com meu dilema sobre cortar os pulsos ou me afogar na banheira quando chegasse em casa, só de desgosto de estar com os benditos braquetes colados.

Ele não passou na rua Y. Na verdade, ele foi direto pra rua X, pulando várias paradas e voltas que ele deveria fazer. Eu franzi o cenho, pegando minha bolsa e levantando do assento, um ponto de interrogação estampado no meu rosto.

"Não ia ter ninguém pra pegar naquelas paradas mesmo... Desce em casa, não precisa andar," ele disse.

Tentei argumentar; fiquei com medo que desse problema pra ele. Não teve jeito: o ônibus já estava parado na frente da minha casa. Eu agradeci, desci do ônibus e caminhei meia dúzia de passos até abrir o portão. E nem o maldito do cadeado duro estragou meu humor, e nem eu deixar meu celular cair no chão mesmo sendo tão neurótica com meus eletrônicos. Nada estragou meu humor.  

Ele não precisava fazer aquilo, e ele não ganhou nada fazendo isso também. Foi só uma gentileza. Um gentileza como a dos meus amigos, mentindo me dizendo que o aparelho não tinha ficado ruim e como minha mãe comentando sobre todas as incontáveis vantagens de se usar aparelho. (Ainda que quando eu decidi pôr, ela tenha dito que não queria ouvir reclamações; que ia doer e que eu ia me estressar e ela não queria ouvir nada disso, porque achava que pôr aparelho ortodôntico era besteira. Ainda assim.)

Por essas e outras que eu acredito que, no geral, o ser humano é nobre e gentil.
Só tem, assim, uma compulsão por corromper uns aos outros. Isso a gente deixa pra falar outra hora.

Um comentário:

  1. É por essas e outras que me sinto honrada por ser tua amiga. E teus amigos não mentem, tu não ficou feia de aparelho, nem poderia!

    bjooo flor!!!!

    ResponderExcluir